sexta-feira, 14 de agosto de 2009

exposição ROCK-SE no café do Teatro Hebraica


Neste sábado, dia 15 de agosto, eu estarei expondo algumas de minhas fotos na festa AQUECE, no café do Teatro da Sociedade Hebraica, que fica na João Telles, 508.É uma festinha preza, com cerveja barata (R$10,00 = 3 latões!) e um showzinho cléssico, do Bino na batera e o Figura na guita. Como o titulo da festa sugere, a proposta é fazer uma junção no inicio da noite, as 22h, pra aquecer pra balada, que no meu caso, é a festa Blow Up no Bar Ocidente, onde estarei fotografando a galera e a festa.

Ficaria muito contente de vê-los por lá!!!



terça-feira, 30 de junho de 2009

Show da Graforréia em 2005

remexendo meus arquivos aqui, eu encontrei este texto e fotos da época em que eu trabalhava no portal POAROCK (ces lembram do poarock??):




Na gravação de seu novo cd ao vivo a Graforréia Xilarmônica prova porque é uma das bandas mais divertidas de todos os tempos na cena gaúcha: nos dois shows realizados no início desta semana (segunda 11/7 e terça 12/7) os integrantes mostraram um show recheado de clássicos da banda, além de muita descontração e um público vibrante.

Banda formada em 1987 por integrantes da Prisão de Ventre, Cascavelletes e Defalla, gravou uma fita demo em 88, chamada Com Amor, Muito Carinho, que rolou de mão em mão arrebatando um número cada vez maior de fãs dentro do circuíto roqueiro de Porto Alegre. Então ocorreu a saída do guitarrista e compositor Marcelo Birk, mas a banda continuou firme com os outros integrantes e passou a ser um trio: Frank Jorge (baixista, vocalista e compositor junto com Birk), Carlo Pianta (guitarrista e vocalista, além de também contribuir com uma ajuda nas composições) e Alexandre “Alemão” Birk (baterista e piadista), formação que gravou em 1995 o aguardado cd de estréia intitulado Coisa de Louco II (Onde está o Coisa de Loco I???!!!), que, devido a falência do selo que o lançou, teve uma má distribuição e hoje é considerado uma raridade pela legião de fãs da banda. Em 98 foi lançado o segundo cd: Chapinhas de Ouro, com a adição de um guitarrista base chamado Eduardo Christ e com várias regravações de canções que já constavam na já citada demo de estréia do grupo.

Em janeiro de 2000 durante um show no bar Ocidente a banda anunciou o seu fim, deixando órfãos um incontável número de fãs por todo o Brasil, que incluem a banda Pato Fu e integrantes dos Los Hermanos. Porém o grupo continuou fazendo shows de reunião esporádicos, por pura nostalgia. E agora, para êxtase geral do público gaúcho, anunciam uma volta com direito a cd ao vivo produzido por Kassim ( produtor dos Los Hermanos).

Em dois shows lotados (apesar do preço de 15 reais, pesados ao bolso roqueiro) a Graforréia mostrou quase todos os seus sucessos em apresentações muito divertidas e descontraídas como só eles são capazes de fazer. Abriram com Literatura Brasileira (que não podia ser um começo melhor!), seguido de Patê e depois Benga Minueto, que começou meio torta, foi interrompida, pra então ser reiniciada e tocada por completo. No meio da apresentação, depois de uma sessão de piadas do baterista Alemão, subiu ao palco o ex integrante, e eterno Graforréio Xilarmônico, Marcelo Birk, para tocar com sua antiga banda algumas músicas mais desconhecidas do público, além de alguns clássicos de sua época na banda.

O show seguiu como esperado: grandes sucessos, intercalados por piadas e ironias típicas da banda, guitarras gritantes e absurdamente atípicas e interessantes, até culminar na apresentação da música Rancho, com o público delirante cantando junto e vibrando com a letra irônica e engraçada. Mas como era de se esperar o show não terminou ali, eles continuaram tocando, puxaram uma versão mais lentinha de Grito de Tarzan, repetiram algumas músicas, tentaram terminar de novo, mas o público não permitiu e exigiu mais um pouco, para então finalmente, depois de mais de duas horas de música o show ser encerrado com a reapresentação de Rancho.

Mais uma vez a Graforréia Xilarmônica provou ser diversão garantida pra todas idades, credos, religiões e gostos, pois apresenta um rock’n’roll muito bem humorado e original, demonstrando por que é uma das bandas gaúchas mais respeitadas e admiradas pelo resto do Brasil.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

pinholes em casa

fotos pinhole tiradas em casa com duas cameras diferentes, feitas com latas de Nescau. O papel fotográfico usado está inválido há alguns anos e os químicos usado na revelação também eram muuuuito velhos, acho q é por isso que ficaram assim tão bizarras e manchadas.




terça-feira, 14 de abril de 2009

*Imagem publicada no Jornal da Fabrica Expressa


Fábio Alt ainda muito jovem foi atingido por um acorde distorcido, nunca se recuperou. Desconfia dos pixels, mas tem fé na revelação através da fotografia e da imagem. Se alimenta de discos de vinil e químicos de laboratório. In fact he is really SICK, but only in the head.

   Comecei com fotografia quando herdei uma câmera Pentax do meu pai (que posteriormente foi roubada) e fui fotografando os amigos. Fui me interessando cada vez mais, comecei a sair com a câmera na noite, nos shows de rock que já freqüentava, com a experiência fui me profissionalizando. Hoje estou com a 'Sick Artes Gráficas', que além de fotos, faz cartazes de show, camisetas, adesivos, criação gráfica de todo tipo.A gente trabalha principalmente com as bandas de rock.

   Quando percebi que tinha muitas fotos das bandas e dos shows registrados ao longo dos anos e que com elas guardadas numa gaveta ninguém iria poder vê-las também, resolvi começar a expô-las, surgiu aí o projeto ROCK-SE. A primeira exposição foi no Beco Cultural, durante o GIG Rock: eram fotos P&B analógicas em uma sala iluminada com luz negra e no outro ambiente, fotos digitais projetadas na parede branca. Mostrando os dois lados da minha produção fotográfica, a analógica totalmente manual e a digital virtual, onde as fotos eram projetadas e não cópias físicas. O projeto seguiu com exposições de fotos de bandas em shows de rock, em lugares como o Garagem Hermética, o Mosh e em outros lugares do estado como Caxias do Sul e Novo Hamburgo. Atualmente estou procurando financiamento para ampliar o projeto ROCK-SE ao audiovisual, registrando algumas das principais bandas da cena portoalegrense fazendo o que mais sabem: ROCK. 

 

   Quem tem influenciado seus trabalhos e que referências vocês levam desde que começaram? 

   Eu trabalho principalmente com bandas de rock, tanto fotos de shows, quanto fotos publicitárias para capas e encartes de cd, ou divulgação. É o que eu gosto de fazer, o que eu tenho feito há anos, principalmente por que antes mesmo de ser fotógrafo eu já ouvia rock e gostava de freqüentar os shows das bandas daqui. Eu sou muito influenciado por outros fotógrafos que já faziam o mesmo antes de mim, em outros tempos e lugares. Bob Gruen é O CARA, ele registrou boa parte da cena rock’n’roll em Nova York, desde o fim dos anos 60 até hoje! O inglês David Bailey é outro grande fotógrafo de rock, Mick Rock tirou fotos clássicas de grandes artistas como Syd Barret e David Bowie. A gaúcha Fernanda Chemale fazia mais ou menos o mesmo estilo de fotos que eu faço hoje com os artistas daqui em uma geração anterior. Outros caras tem feito um belo trabalho hoje em dia, como o Giovani Paim e o Tatu, mas acho q trabalham somente com a fotografa digital... Também gosto muito de outros tipos de fotografia, principalmente as em preto e branco, levo como influencia (eu e todos outros fotógrafos) o francês Henry Cartier-Bresson, o americano Man Ray, gosto muito da fotografia surreal de Philippe Halsman, influenciado por Salvador Dali. Acho realmente diferenciado o trabalho que a Rochele tem feito com fotografia e também outras esferas da arte, É alguém que realmente comprova na prática a superioridade artística da imagem analógica, com tratamento manual em relação aos tão mais práticos métodos digitais.  


   Em um tempo que a indústria tem feito de tudo para dimuir trabalho e tamanho, porque vocês insistem em fotografias com máquinas analógicas? 

   Eu me interesso por fotografia em todos os aspectos, desde a parte química até questões teóricas de subjetividade do fotógrafo como artista, do fotojornalismo até a questão mecânica de uma câmera fotográfica. Quando eu comecei a fotografar e me interessar por isso, câmeras digitais eram muito caras e ainda eram muito ruins em relação às de hoje. Além da máquina fotográfica eu comprei um ampliador e montei um pequeno laboratório de revelação fotográfica nos fundos de casa, onde revelo meus filmes e amplio minhas fotos. É realmente muito gratificante ser responsável por todas as etapas do trabalho e culminar com aquela imagem surgindo na frente de seus olhos em uma sala com somente luz vermelha. Sabe, beira o romântico, é quase mágico.

   Sempre gostei das coisas antigas, acho que tem mais qualidade, coleciono discos de vinil, sou fissurado por fotos em Preto & Branco. As coisas feitas analógicamente costumam ser sempre melhores do que as digitais: uma bateria eletrônica pode simular uma de verdade, mas nunca vai ser realmente uma. Uma fotografia digital simula, mas não é como uma fotografia de verdade, não alcança os mesmos contrastes, as mesmas cores, a mesma naturalidade e profundidade, além de que perde boa parte da magia, da parte lúdica de captar, revelar e ampliar imagens.

   Recentemente a Kodak fechou as fabricas no Brasil e parou de fabricar e comercializar papeis fotográficos e químicos de revelação, o que encareceu bastante o valor deles no mercado. Todo o mercado da fotografia está se voltando para o digital, os pequenos laboratórios de revelação expressa estão fadados, a fotografia analógica está se tornando exclusivamente artística, não só pelo preço muito mais acessível, pois não envolve filme e nem reagentes a base de prata, mas também pela praticidade, uma fotografia digital pode ser captada, vista na hora, enviada pela Internet e estar do outro lado do mundo em instantes. Atualmente eu uso, pra trabalho, mais a minha câmera digital, pois não tem mais como fugir disso quando se pretende estar no mercado, deve adaptar-se a ele. Mas sempre que possível gosto de comprar um filme Preto & Branco, revelar ele e ampliar os negativos e assistir ao milagre do surgimento de uma fotografia.



“Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.”

Henri Cartier-Bresson  

  A fotografia, logo que foi inventada, e nos primeiros anos de sua prática, surgiu como uma ameaça ao ofício do pintor retratista e paisagista, pois tem a capacidade de registrar imagens com mais precisão e realismo, além de ser mais facilmente obtida e custar menos. E realmente, a daguerreotipia (tipo de registro fotográfico antigo) se popularizou amplamente entre a classe média durante a Revolução Industrial, tirando o emprego de muitos retratistas à óleo. Este fato libertou a pintura da função de registrar e possibilitou os artistas a investir em abstrações e criações puramente artísticas, sem ligação direta com o real. Enquanto isso a fotografia ficou como herdeira do retrato e era tida como um “instantâneo de realidade”, algo do qual não se pode duvidar, um fato. No início do século XX foram inventadas câmeras fotográficas mais práticas e leves, foi introduzido no mercado o rolo de filme 35mm, fácil de carregar e que possibilita obtenção de várias imagens antes da revelação, facilitando muito o trabalho do fotógrafo e popularizando muito a prática da captação fotosensível.

  Antes da metade do século passado teóricos perceberam que quem bate a foto é uma pessoa, quem escolhe a cena, o angulo, o enquadramento é um ser humano repleto de subjetividade, além de que a pessoa que vê a foto pronta também tem sua própria interpretação da imagem. A fotografia é um processo semiótico, é um texto como qualquer outro, onde há vários símbolos escolhidos pelo autor e interpretados por quem a “lê”, de acordo com seu repertório próprio. Isto libertou também a fotografia da condição de “instantâneo de realidade”, e então foi possível incluí-la na categoria de Arte.

  Desde que foi inventada a fotografia evoluiu muito, veio a foto colorida, o foco automático, as câmeras pequenas, práticas e fáceis de manusear, ela se popularizou extremamente, se segmentou em vários estilos – fotojornalismo, fotografia de retratos, de paisagens, natureza morta, etc. E nos últimos anos ocorreu outra revolução do processo fotográfico: a Fotografia Digital, que possibilitou uma grande praticidade e barateou o custo da obtenção de imagens, pois dispensa o uso do negativo e da revelação. Hoje quase todos tem a cesso a fotografia, as câmeras são baratas, fáceis, foram incluídas até em telefones celulares.

  Porém ao mesmo tempo que é uma vantagem este acesso irestrito à fotografia, ele tornou-a uma coisa tão banal e costumeira que deixou de ter o valor artístico e subjetivo que ela costumava possuir. Perdeu a magia da revelação e da ampliação, da câmara escura, da luz vermelha, só quem já fez/viu sabe a satisfação que proporciona o surgimento de uma imagem em uma folha de papel branca ao molhá-lo no químico revelador.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Coisas da Vida

Eu nem sei quando eu comecei a segui-las, e nem por que. Elas eram tão diferentes do tipo de mulher que eu conhecia, tão lindas, tão limpas, tão cheirosas. Faziam um estilo meio alternativo. Uma delas, a loira tinha um brinco no nariz, e pintou o contorno dos olhos tão escuro que contrastava muito com a sua pele clara, pele de quem evita o sol, de quem prefere a noite. Eu também sempre preferi a noite, o sol é tão violento, ele me cega, me embriaga, me deixa tonto. Pra mim a melhor hora é essa, logo que está anoitecendo. A senhora que cuidou de mim quando eu era novo chamava esse horário de lusco-fusco. Lusco-Fusco. Eu adoro essa palavra, sempre quis saber se teria alguma relação com o fusca, o carro. Talvez eu nunca descubra. A outra tinha a pele e o cabelo escuros, não era negra, mal chegava a ser mulata, mas certamente tinha um pé na África, talvez o avô. Era algo no contorno de seu rosto e no seu nariz que evidenciava isso. Elas conversavam tão avidamente que nem repararam que eu as estava seguindo. Primeiro elas estavam conversando sobre roupas, as duas vestiam trajes bastante escuros, pelo visto gostavam muito de preto. Depois começaram a falar sobre os garotos. Essa juventude se interessa pelas coisas de adultos cada vez mais cedo. Essas garotas deviam estar ainda brincando de bonecas, mas discutiam quantos guris tinham beijado na festa. Eu casaria com qualquer uma das duas antes de sequer beijá-las, pediria a mão dela ao seu pai, com todas as formalidades. Só de pensar que essas garotas, tão lindas já podiam até ter se iniciado nos prazeres da carne me deixava transtornado. Foi aí que dobrou a esquina, bem na frente delas, aquele cara, aparentava ser pobre: era mulato e mal vestido. E ele disse “Aí Princesa, eu lamberia até tuas frieiras”, não, ele disse: “Aí Princesa, contigo eu até lamberia até tuas frieiras”, assim sem o menor respeito com elas e nem com o idioma português. Tarado, eu tenho nojo de gente assim. Não deviam existir pessoas assim numa sociedade civilizada como a nossa. É o dever de todos nós, como cidadãos, evitar que exista gente assim à solta. Eu tenho nojo de gente assim. Eu parei, fingi que tinha esquecido alguma coisa, fiz uma cara de quem lembra de algo, fiz a volta e comecei a segui-lo. Ele era nojento, caminhava como se fosse dono do mundo, todo malandro. Parou no ponto de ônibus e ali ficou. Eu parei um pouco antes dele de modo que ele nem percebeu que eu estava observando-o. Ele era nojento, aquela guria podia ser minha esposa, minha irmã, minha filha, e ele a tratava daquela forma. Eu não sei se tenho irmãs, nunca conheci a minha mãe. Lembro muito pouco da minha infância, fui criado por uma senhora bem velha e bem gorda. Nem lembro o nome dela. Talvez nunca tenha sabido. Eu a chamava de senhora, ela me chamava de menino. Assim que cresci um pouco fui pra rua. Mas esposa e filha eu sei que eu não tenho, mas se tivesse, gostaria que fosse alguém como aquelas garotas. Alguém especial. Dentro do ônibus eu consegui sentar-me no banco imediatamente atrás do dele. Ele tinha um cheiro bem desagradável, uma mistura de suor com asa, bem azedo. Fiquei com pena da senhora que estava ao lado dele, ali o odor devia estar ainda pior. Eu tenho nojo de gente assim. Ele estava com uma camiseta azul celeste, e embaixo de suas axilas tinha aquele círculo azul escuro de suor, de gente que trabalha pesado. De quem trabalha com o corpo. Ele era bem forte, devia ser difícil derrubar um sujeito assim. Ele deve ser pedreiro, deve trabalhar como um camelo o dia inteiro, ser explorado por todo um sistema que parece que foi criado especialmente pra fuder contigo. E, por outro lado, ele enxerga umas guriazinhas limpinhas, cheirosas, com pinta de quem teve, tem e terá muito mais chance de realização pessoal na vida do que ele poderia sonhar. Aí, como descargo de consciência, ele sai faltando o respeito com elas, pra tentar baixá-las ao seu nível. Gente assim me dá nojo. Ele, mais algumas pessoas e eu descemos perto de uma praça com um campo de futebol onde jogavam uma penca de crianças, já estava escuro, mas elas ainda jogavam, quase sem enxergar a bola. Andei bem devagar, fingindo que olhava as crianças jogar, pra ele tomar uma distância segura e eu poder segui-lo sem ser notado. Entramos em um beco que dava pra dentro de uma vila. Muitos barracos, e famílias amontoadas, convivendo em uma harmonia totalmente disforme, um equilíbrio bizarro. Eu logo imaginei que ele devia ter uma esposa gorda e feia dentro de casa pra humilhar e desrespeitar a vontade, e ser pai de algumas daquelas crianças magras e tortas que tentavam correr atrás de uma bola, pois sabem que é a única saídas pra gente como eles obter fama, poder e dinheiro: sendo famosos jogadores de futebol com salários milionário em algum time da Europa. Mas não, aparentemente ele mora sozinho em um barraco no fundo de um outro barraco maior onde mora uma família. Eu observei bastante por ali, ninguém mais entrou ou saiu depois dele. Se mora mais alguém com ele essa pessoa não deu nenhum sinal, não apareceu na janela nenhuma vez. Fiquei por ali, indo e voltando até as dez mais ou menos, quando fiquei com fome e fui atrás de algum lugar pra comer. Comi um xis em um buteco da redondeza. Ali eu puxei papo com uns bêbados e com o dono do estabelecimento. Um cara como ele, assim tão nojento, deve ser também um bêbado freqüentador de uma espelunca como aquela. Um deles o conhecia, mas disse que não, que ele trabalha muito, então dorme bem cedo pra acordar cedo no outro dia também: “acorda com as galinhas”, ele disse. Então concluí que ele já devia estar dormindo a essa hora. Terminei meu xis, minha cerveja e voltei pra casa dele, onde, pra minha surpresa, ele havia deixado a janela aberta. Também, com um calor desses deve ser abafado dentro daquela pequena peça toda mal feita que ele chama de casa. Me certifiquei duas vezes de que ninguém veria eu entrando pela janela dele, silenciosamente. Ele era grande, mas eu estava armado. Atirei no peito, com ele dormindo. Acho que ele só acordou pra ver a minha cara de nojo enquanto ele morria. Esse silenciador foi minha melhor compra dos últimos tempos. Um barulho de tiro numa zona como esse chamaria a atenção de muita gente, talvez eu nunca conseguisse sair daquela vila se não tivesse esse silenciador. Tentei tocar o mínimo possível nas coisas dele e saí de lá assim que pude, aquele lugar todo me dava nojo. Tive que esperar até de manhã naquela zona pra poder pegar o ônibus de volta pra casa. Foi bom, porque eu tive bastante tempo pra pensar nas coisas da vida. Depois que amanheceu, mas só quando o sol ficou mais alto e começou pesar na minha cabeça, eu fui para a parada de ônibus, onde já estavam a esperá-lo duas mulheres. Uma delas devia ter mais ou menos a minha idade, não era tão nova, mas ainda estava na flor da idade. Conversava displicentemente enquanto esperava o ônibus com sua amiga, então puxou uma carteira de cigarros da bolsa, tirou o último de dentro e jogou no chão o masso vazio. Tinha uma lata de lixo bem do lado dela, mas ela jogou o lixo no chão. Provavelmente iria jogar o cigarro ainda acesso no chão também quando o ônibus chegasse. Eu tenho nojo de gente assim.