
terça-feira, 14 de abril de 2009

Comecei com fotografia quando herdei uma câmera Pentax do meu pai (que posteriormente foi roubada) e fui fotografando os amigos. Fui me interessando cada vez mais, comecei a sair com a câmera na noite, nos shows de rock que já freqüentava, com a experiência fui me profissionalizando. Hoje estou com a 'Sick Artes Gráficas', que além de fotos, faz cartazes de show, camisetas, adesivos, criação gráfica de todo tipo.A gente trabalha principalmente com as bandas de rock.
Quando percebi que tinha muitas fotos das bandas e dos shows registrados ao longo dos anos e que com elas guardadas numa gaveta ninguém iria poder vê-las também, resolvi começar a expô-las, surgiu aí o projeto ROCK-SE. A primeira exposição foi no Beco Cultural, durante o GIG Rock: eram fotos P&B analógicas em uma sala iluminada com luz negra e no outro ambiente, fotos digitais projetadas na parede branca. Mostrando os dois lados da minha produção fotográfica, a analógica totalmente manual e a digital virtual, onde as fotos eram projetadas e não cópias físicas. O projeto seguiu com exposições de fotos de bandas em shows de rock, em lugares como o Garagem Hermética, o Mosh e em outros lugares do estado como Caxias do Sul e Novo Hamburgo. Atualmente estou procurando financiamento para ampliar o projeto ROCK-SE ao audiovisual, registrando algumas das principais bandas da cena portoalegrense fazendo o que mais sabem: ROCK.
Quem tem influenciado seus trabalhos e que referências vocês levam desde que começaram?
Eu trabalho principalmente com bandas de rock, tanto fotos de shows, quanto fotos publicitárias para capas e encartes de cd, ou divulgação. É o que eu gosto de fazer, o que eu tenho feito há anos, principalmente por que antes mesmo de ser fotógrafo eu já ouvia rock e gostava de freqüentar os shows das bandas daqui. Eu sou muito influenciado por outros fotógrafos que já faziam o mesmo antes de mim, em outros tempos e lugares. Bob Gruen é O CARA, ele registrou boa parte da cena rock’n’roll em Nova York, desde o fim dos anos 60 até hoje! O inglês David Bailey é outro grande fotógrafo de rock, Mick Rock tirou fotos clássicas de grandes artistas como Syd Barret e David Bowie. A gaúcha Fernanda Chemale fazia mais ou menos o mesmo estilo de fotos que eu faço hoje com os artistas daqui em uma geração anterior. Outros caras tem feito um belo trabalho hoje em dia, como o Giovani Paim e o Tatu, mas acho q trabalham somente com a fotografa digital... Também gosto muito de outros tipos de fotografia, principalmente as em preto e branco, levo como influencia (eu e todos outros fotógrafos) o francês Henry Cartier-Bresson, o americano Man Ray, gosto muito da fotografia surreal de Philippe Halsman, influenciado por Salvador Dali. Acho realmente diferenciado o trabalho que a Rochele tem feito com fotografia e também outras esferas da arte, É alguém que realmente comprova na prática a superioridade artística da imagem analógica, com tratamento manual em relação aos tão mais práticos métodos digitais.
Em um tempo que a indústria tem feito de tudo para dimuir trabalho e tamanho, porque vocês insistem em fotografias com máquinas analógicas?
Eu me interesso por fotografia em todos os aspectos, desde a parte química até questões teóricas de subjetividade do fotógrafo como artista, do fotojornalismo até a questão mecânica de uma câmera fotográfica. Quando eu comecei a fotografar e me interessar por isso, câmeras digitais eram muito caras e ainda eram muito ruins em relação às de hoje. Além da máquina fotográfica eu comprei um ampliador e montei um pequeno laboratório de revelação fotográfica nos fundos de casa, onde revelo meus filmes e amplio minhas fotos. É realmente muito gratificante ser responsável por todas as etapas do trabalho e culminar com aquela imagem surgindo na frente de seus olhos em uma sala com somente luz vermelha. Sabe, beira o romântico, é quase mágico.
Sempre gostei das coisas antigas, acho que tem mais qualidade, coleciono discos de vinil, sou fissurado por fotos em Preto & Branco. As coisas feitas analógicamente costumam ser sempre melhores do que as digitais: uma bateria eletrônica pode simular uma de verdade, mas nunca vai ser realmente uma. Uma fotografia digital simula, mas não é como uma fotografia de verdade, não alcança os mesmos contrastes, as mesmas cores, a mesma naturalidade e profundidade, além de que perde boa parte da magia, da parte lúdica de captar, revelar e ampliar imagens.
Recentemente a Kodak fechou as fabricas no Brasil e parou de fabricar e comercializar papeis fotográficos e químicos de revelação, o que encareceu bastante o valor deles no mercado. Todo o mercado da fotografia está se voltando para o digital, os pequenos laboratórios de revelação expressa estão fadados, a fotografia analógica está se tornando exclusivamente artística, não só pelo preço muito mais acessível, pois não envolve filme e nem reagentes a base de prata, mas também pela praticidade, uma fotografia digital pode ser captada, vista na hora, enviada pela Internet e estar do outro lado do mundo em instantes. Atualmente eu uso, pra trabalho, mais a minha câmera digital, pois não tem mais como fugir disso quando se pretende estar no mercado, deve adaptar-se a ele. Mas sempre que possível gosto de comprar um filme Preto & Branco, revelar ele e ampliar os negativos e assistir ao milagre do surgimento de uma fotografia.

“Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.”
Henri Cartier-Bresson
A fotografia, logo que foi inventada, e nos primeiros anos de sua prática, surgiu como uma ameaça ao ofício do pintor retratista e paisagista, pois tem a capacidade de registrar imagens com mais precisão e realismo, além de ser mais facilmente obtida e custar menos. E realmente, a daguerreotipia (tipo de registro fotográfico antigo) se popularizou amplamente entre a classe média durante a Revolução Industrial, tirando o emprego de muitos retratistas à óleo. Este fato libertou a pintura da função de registrar e possibilitou os artistas a investir em abstrações e criações puramente artísticas, sem ligação direta com o real. Enquanto isso a fotografia ficou como herdeira do retrato e era tida como um “instantâneo de realidade”, algo do qual não se pode duvidar, um fato. No início do século XX foram inventadas câmeras fotográficas mais práticas e leves, foi introduzido no mercado o rolo de filme 35mm, fácil de carregar e que possibilita obtenção de várias imagens antes da revelação, facilitando muito o trabalho do fotógrafo e popularizando muito a prática da captação fotosensível.
Antes da metade do século passado teóricos perceberam que quem bate a foto é uma pessoa, quem escolhe a cena, o angulo, o enquadramento é um ser humano repleto de subjetividade, além de que a pessoa que vê a foto pronta também tem sua própria interpretação da imagem. A fotografia é um processo semiótico, é um texto como qualquer outro, onde há vários símbolos escolhidos pelo autor e interpretados por quem a “lê”, de acordo com seu repertório próprio. Isto libertou também a fotografia da condição de “instantâneo de realidade”, e então foi possível incluí-la na categoria de Arte.
Desde que foi inventada a fotografia evoluiu muito, veio a foto colorida, o foco automático, as câmeras pequenas, práticas e fáceis de manusear, ela se popularizou extremamente, se segmentou em vários estilos – fotojornalismo, fotografia de retratos, de paisagens, natureza morta, etc. E nos últimos anos ocorreu outra revolução do processo fotográfico: a Fotografia Digital, que possibilitou uma grande praticidade e barateou o custo da obtenção de imagens, pois dispensa o uso do negativo e da revelação. Hoje quase todos tem a cesso a fotografia, as câmeras são baratas, fáceis, foram incluídas até em telefones celulares.
Porém ao mesmo tempo que é uma vantagem este acesso irestrito à fotografia, ele tornou-a uma coisa tão banal e costumeira que deixou de ter o valor artístico e subjetivo que ela costumava possuir. Perdeu a magia da revelação e da ampliação, da câmara escura, da luz vermelha, só quem já fez/viu sabe a satisfação que proporciona o surgimento de uma imagem em uma folha de papel branca ao molhá-lo no químico revelador.
