Um dia desses li uma crônica em algum lugar que falava sobre uma questão que aflige qualquer escritor (ou pseudo-escritor) em algum ponto da carreira: o famoso Branco. Era a triste história de um cronista que, na necessidade de vender suas idéias para comprar o pão de cada dia, trabalhava para um periódico, onde tinha prazos para entregar seus textos a fim de serem publicados na próxima edição. Seu chefe, O Editor, era um cara legal, uma vez até o convidou para jantar em sua casa, e sempre gostou muito de seus textos, quando ele chegava com um texto novo O Editor fazia questão de lê-lo na hora, enquanto lia ia dando aquela risadinha de canto de boca, quando terminava levantava-se e dizia: – Parabens, dessa vez você se superou! – e dava um tapinha em suas costas. Até quando ele tinha certeza de que sua crônica não havia alcançado o nível esperado, vinha O Editor com seu sorrisinho de canto de boca e o tapinha nas costas.
Mas desta vez era diferente, nem era questão de chegar com um texto medíocre, era branco total, simplesmente ele não tinha nada pra dizer desta vez. – Como pode, eu sou um profissional – pensava ele – eu preciso ter algo para dizer, com tanta coisa acontecendo neste mundo: guerras, crises, o capitalismo selvagem engolindo os pequenos para manter os grandes com a barriga cheia, como posso não conseguir escrever uma pequena crônica, nem espero escrever um tratado sobre a paz no mundo, ou uma dura crítica aos severos problemas da humanidade. Não! É somente uma humilde crônica, uma crônicazinha, nem precisa ser boa, só o suficiente para garantir o tapinha nas costas, quando muito, mais um convite para jantar. Mas nada. Ele simplesmente não conseguia escrever nem um linha.
“A Ditadura na Venezuela”, não, esse tema é manjado, “Pirataria de ‘Tropa de Elite’”, nah, escrevi sobre isto na última vez... – quanto mais ele se esforçava para achar algo de que pudesse escrever, menos ele se inspirava para escrever alguma coisa sobre este algo. Era o fim, sua carreira estava acabada, o texto já estava atrasado, toda a edição atrasaria na espera de sua crônica e ele nunca conseguiria entregar nada, nunca mais conseguiria escrever, era melhor começar a procurar outro trabalho, com uma função mais fácil, talvez comprar uma van e vender cachorro quente na esquina, todo mundo come cachorro quente, e ele nunca teria problemas em conseguir fazer cachorro quente.
Uma coisa era certa: pra cronista ele não servia. Como alguém pode se considerar um profissional se nem consegue realizar sua função? É, ele realmente não era escritor. Tavez nunca tenha sido, nunca poderia ser. Até então sua vida profissional foi uma farsa, provavelmente nem O Editor gostava de seus textos, só o elogiava por pena, compaixão para com um pobre ser que confiava em suas habilidades, aquele tapinha nas costas nunca foi sincero, fingido, o convite para jantar também, mentira! Na verdade nem foi um convite, foi mais um: “Venha jantar conosco uma hora dessas, minha esposa cozinha muito bem.” Não um: “Quer jantar comigo na sexta?”, algo certo, se ele realmente quisesse sua companhia teria convidado-o assim, não sugerido levemente e depois nunca mais comentado.
Azar! – pensou ele – Vou simplesmente escrever sobre isso: a minha falta do que escrever sobre! Dito e feito, sua crônica saiu de uma só vez, em questão de minutos ele escreveu, uma linha após a outra, um texto até maior do que o exigido. Chegou na sala d’O Editor com uma idéia na cabeça: entregaria o texto esperaria-o ler e pediria demissão, ele tinha economias, poderia comprar a van de cachorro quente, parcelada, claro, até O Editor compraria seus cachorros quentes, e ele nunca mais precisaria enfrentar O Branco, pra cachorro quente não precisa inspiração, só maionese. Entrou, entregou a folha para O Editor, ele leu, leu, leu e ao terminar levantou-se deu-lhe um tapinha nas costas e disse: “Queres jantar na minha casa na sexta?”
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