segunda-feira, 22 de setembro de 2008

The Kinks - Arthur, Or The Decline And Fall Of The British Empire




O ano era 1969. O movimento hippie e a música psicodélica alcançavam o seu auge. A banda era The Kinks, que, mesmo se não tivesse lançado o clássico Arthur, Or The Decline And Fall Of The British Empire, já teria seu lugar garantido no hall da fama do rock'n'roll, primeiro com seu som distorcido e garageiro de hits como You Really Got Me e All Day and All of The Night, depois pelas grandes canções do rock britânico entre 66 e 68. Arthur é o disco que divisa as águas na carreira dos Kinks, é bem mais voltado ao rock do que os trabalhos anteriores, porém ainda detém aquele sentimento inocente/nostálgico dos anos 60, que foi se esvanecendo em seus trabalhos posteriores. As músicas foram concebidas por Ray Davies para serem a trilha sonora de um programa de televisão, que acabou não sendo produzido. Contava uma história vagamente baseada na de sua irmã Rosie (assim como a de Dave Davies, guitarrista solo) e de seu marido Arthur, que se mudaram para Austrália. Mas por baixo de uma história normal de um inglês comum está uma irônica crítica à sociedade britânica.

A geração dos irmãos Davies e contemporâneos cresceu com o peso da Segunda Guerra Mundial nas costas, escombros e histórias de como Império Britânico venceu os inimigos, além do medo de que novos conflitos pudessem ocorrer, assim como Arthur, o protagonista da história. A música Vitória, um rock estimulante, é uma ingênua, alegre e irônica ode à rainha e ao reino britânico: "Land of Hope and Glory", onde ele nasceu e que aprendeu a amar. Yes Sir, No Sir é uma crítica ao militarismo, onde os soldados precisam pedir autorização até para respirar e o general decide suas vidas de cima de sua autoridade na hierarquia. Aí vem Some Mother's Son, uma balada de arrepiar os pêlos que mostra o horror de uma guerra, tratando da morte de um soldado como o filho de alguma mãe que não vai poder voltar pra casa, mas mesmo assim o mundo continua girando, apesar das crianças que se foram. Drivin' é a que mais lembra os discos anteriores dos Kinks, alegre, meio vaudeville, divertida, sobre o prazer de sair dirigindo seu carro e esquecer-se dos problemas.

E é então que vem o chute no balde que faz desse disco o que ele é, Brainwashed, uma porrada sonora, que acusa sem meias palavras o homem britânico comum de parecer um ser humano, mas não ter uma mente própria, de ter sua casa, seu trabalho, seu carro, mas ter o cérebro lavado, e anuncia que os 'aristocratas e os burocratas são ratos sujos por fazerem de você o que você é.' Porém as oportunidades estão abertas na Austrália, que é retratada como um paraíso na terra, sem distinção de classes, sem vício em drogas, onde todos sempre sorriem e ninguém nunca irá deixá-lo para baixo. Australia é a única faixa do disco que representa algo próximo ao psicodélico predominante na música da época. Shangri-la começa tranqüila - sobre o paraíso do lar, as pantufas, a lareira, seu carro e sua cadeira de balanço -, alcança um refrão de vocais gloriosos, até ser cortado por uma outra parte, mais pesada, onde quem fala é algo como a consciência, mostrando como nada é assim tão fácil quanto parece, há a hipoteca a pagar, as contas, os impostos, os vizinhos são fofoqueiros e Arthur tem medo até de pensar em como ele é inseguro, a vida não é assim tão feliz em sua pequena xangri-lá.

No início, Mr. Churchill Says é despretensiosa, alegre, mostra que, como diz Sr. Churchill, devemos lutar nossas batalhas até o final, porém no meio há uma intervenção, com guitarras pesadas, sirenes de ataque aéreo, casas em chamas, pessoas mortas. Um longo solo num estilo oriental por Dave Davies introduz a um coro militar que reafirma as palavras de Churchill, e termina com guitarras distorcidas e pegada quase punk (em '69). She's Bought A Hat Like Princess Marina é a canção mais irônica do álbum, mostra como as pessoas simples compensam a tristeza de sua vida dura adquirindo bens supérfluos de valor social, como um chapéu no estilo da princesa Marina. Enquanto os vizinhos a acharem bem com seu novo chapéu ela não se importa com a pobreza ferindo seu orgulho. Youg And Innocent Days, é a mais lenta do disco, triste e nostálgica, trata da saudade da infância, aqueles grandes jovens e inocentes dias. Aí vem o rockão Nothing To Say, sobre a falta de assunto entre gerações que não mais dividem a mesma vida, e o único tema conversado é relembrando os bons tempos. A levada de piano, a guitarra solo de Dave que não pára de disparar riffs e solos a música inteira e o vocal expressivo de Ray mostram que é realmente uma gravação muito inspirada dos Kinks como banda. A última música do álbum é Arthur, uma canção de complacência para com o personagem homônimo, que nasceu uma pessoa simples, sem ambição, lutou a vida inteira para melhorar sua condição, mas o mundo sempre passou-o para trás. Será que o mundo é que estava errado e você certo, Arthur?

Neste álbum os Kinks alcançaram sua completa maturidade, e certamente é uma das gravações mais exitosas de uma banda britânica, junto com os discos dos Beatles e dos Rolling Stones. Porém, alguns meses antes o The Who lançou sua obra prima Tommy, que também é um álbum conceitual onde se conta uma história, e os Kinks acabaram ficando ofuscados, enquanto o Who assumiu o título de criadores da primeira ópera rock, apesar de tanto a música quanto a história em Arthur, Or The Decline And Fall Of The British Empire serem mais bem elaboradas e melhor executadas. Devido à falta da interface visual que teria se tivesse acontecido como foi concebido (a música e o programa de TV) o disco não foi um grande sucesso de vendas na época, porém hoje, quase quarenta anos depois, é estimado por muitos como um dos melhores álbuns já lançados, não só pela música, mas também pela poesia e pela mensagem de crítica à ideologia estabelecida de vida bem sucedida.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Eu dava um braço e as duas pernas pra ser negão...




Let's sing the blues...

não sou religioso, mas o Louie é foda!!!


Swing Low, Sweet Chariot,

Chorus:
Swing low, sweet chariot,
Comin' for to carry me home;
Swing low, sweet chariot,
Comin' for to carry me home.

I looked over Jordan,
And WHAT did I see,
Comin' for to carry me home,
A band of angels comin' after me,
Comin' for to carry me home.

Repeat chorus:

If you get there before I do,
Comin' for to carry me home,
Tell all my friends I'm comin' too,
Comin' for to carry me home.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Pontos de vista


Os sem chão

Comunidade de índios Caigang correm risco de perder suas moradias no Morro do Osso por decisão da justiça.

Conforme folheto da prefeitura a história narra a presença de grupos indígenas Caigang no Morro do Osso desde o século XIX. E outros povos nativos provavelmente vivessem ali desde muito antes da chegada dos homens brancos nesta área. Porém devido à especulação imobiliária estes povos marginalizados na sociedade correm o risco de serem expulsos dali, onde tem suas casas e sua comunidade.

O Morro do Osso fica em um dos locais mais bonitos de Porto Alegre. Do alto dele se tem uma visão panorâmica de boa parte da cidade, além de ser um ponto privilegiado para assistir ao espetáculo do pôr-do-

sol no Rio Guaíba. Por isso o interesse em construir ali condomínios e moradias luxuosas para a classe dominante de nossa cidade. Porém nenhum rico comerciante ou empresário gostaria de ter índios “mal-cheirosos” e “vagabundos” perto de suas portas, fazendo fogueiras e vivendo como podem em seus barracos.

Outra questão é a ambiental, pois ali se encontra o Parque Natural do Morro do Osso, uma reserva florestal que ainda abriga um pouco da quase extinta Mata Atlântica. Ambientalistas afirmam que os índios ali presentes não cuidam da reserva, poluindo o ambiente, coletando vegetais e caçando os animais. Entretanto, quem somos nós para dizer que os índios são poluidores, quando as fábricas, as indústrias, as maiores emissoras de poluentes na atmosfera, água e solo, são todas controladas por brancos capitalista

s, estes mesmos que exigem a entrada de seu condomínio de luxo com vista para o Guaíba “limpa” de índios sujos.

Os índios já caçavam e coletavam ali muito antes da colonização européia dizimar grande parte da mata atlântica, e é o meio de vida que sua cultura estabelece, porém aos olhos dos capitalistas europeizados não passam de vagabundos por não valorizar a acumulação de capital e viver só com o que a natureza os oferece.

“No momento, estamos aguardando a decisão do juiz da Vara Federal Ambiental, Agrária e Residual de Porto Alegre decidir quais serão os estudos que devem ser feitos para comprovar que a terra realmente pertence aos índios”. Diz o advogado Luiz Francisco Corrêa Barbosa, o representante legal dos índios Caigang. Mas do jeito que nossa sociedade se baseia em preconceitos e na descriminação dos diferentes, é bem provável que essa decisão venha para tirar a moradia de mais uma comunidade indígena, comprovando a falta de tato de nossos representantes com esta questão tão delicada que permeia nossa história há mais de cinco séculos.


Parque Natural do Morro do Osso

Grupo de índios se recusa a deixar as terras invadidas no Parque do Morro do Osso e destroem a reserva florestal.

Em 1979 o novo plano diretor da cidade de Porto Alegre incluía uma área de preservação ecológica no Morro do Osso, uma ilha de natureza no meio da zona urbana de Porto Alegre. Em 1990, foi realizado o primeiro passeio ecológico para preservação da área e efetivação do parque. Em 1994, foi criado o Parque Natural Morro do Osso. Porém, parece que todas estas conquistas para a preservação ecológica estão indo por água a baixo, pois um grupo de indígenas que se estabeleceu nesta área se recusa a abandonar o local mesmo sabendo que se trata de uma área de preservação, onde não pode haver moradias com pessoas vivendo.

O Morro do Osso tem 143 metros de altura, faz parte da cadeia dos morros graníticos existentes em Porto Alegre e, por localizar-se próximo à margem do Lago Guaíba, tem uma das vistas mais privilegiadas do famoso pôr-do-sol do Guaíba. Com 220 hectares de área natural, constitui-se num importante reduto biológico, isolado no meio dos bairros Tristeza, Ipanema, Camaquã e Cavalhada, zonas bastante urbanizadas. É um dos últimos pontos onde ainda se encontra um pouco da mata atlântica, vegetação quase extinta pela colonização inconseqüente. E é a moradia de diversas espécies animais e vegetais, algumas até consideradas em extinção.

Entretanto, uma comunidade de índios Caigang se estabeleceu nesta área, e, diferentemente de seus ancestrais que respeitavam e cuidavam da natureza, estão transformando esta bela paisagem em mais uma favela, pois eles, além de não respeitar a área de preservação, caçando animais e derrubando árvores, deixam enormes quantidades de lixo pelo chão, fazem fogueiras que podem causar grandes incêndios na mata e constroem barracos que são como malocas.

Os Caigang afirmam que a área pertence historicamente aos índios, e que os brancos estão tentando retirá-los do lugar onde viveram seus ancestrais. Porém historicamente se sabe que esta área foi povoada por índios Guarani, que tiveram ali um cemitério (por isso o nome Morro do Osso), e os Guarani não são os Caigang, foram até inimigos. Portanto este argumento não tem o menor fundamento, tendo em vista que não viveram ali nenhum ancestral, e sim uma outra tribo sem relação. Isto não passa de mais uma tentativa de um povo que realmente é marginalizado e descriminado de se aproveitar de sua condição de diferente, sem pensar no dano irreversível que isso pode causar à natureza.

O Branco

Um dia desses li uma crônica em algum lugar que falava sobre uma questão que aflige qualquer escritor (ou pseudo-escritor) em algum ponto da carreira: o famoso Branco. Era a triste história de um cronista que, na necessidade de vender suas idéias para comprar o pão de cada dia, trabalhava para um periódico, onde tinha prazos para entregar seus textos a fim de serem publicados na próxima edição. Seu chefe, O Editor, era um cara legal, uma vez até o convidou para jantar em sua casa, e sempre gostou muito de seus textos, quando ele chegava com um texto novo O Editor fazia questão de lê-lo na hora, enquanto lia ia dando aquela risadinha de canto de boca, quando terminava levantava-se e dizia: – Parabens, dessa vez você se superou! – e dava um tapinha em suas costas. Até quando ele tinha certeza de que sua crônica não havia alcançado o nível esperado, vinha O Editor com seu sorrisinho de canto de boca e o tapinha nas costas.
Mas desta vez era diferente, nem era questão de chegar com um texto medíocre, era branco total, simplesmente ele não tinha nada pra dizer desta vez. – Como pode, eu sou um profissional – pensava ele – eu preciso ter algo para dizer, com tanta coisa acontecendo neste mundo: guerras, crises, o capitalismo selvagem engolindo os pequenos para manter os grandes com a barriga cheia, como posso não conseguir escrever uma pequena crônica, nem espero escrever um tratado sobre a paz no mundo, ou uma dura crítica aos severos problemas da humanidade. Não! É somente uma humilde crônica, uma crônicazinha, nem precisa ser boa, só o suficiente para garantir o tapinha nas costas, quando muito, mais um convite para jantar. Mas nada. Ele simplesmente não conseguia escrever nem um linha.
“A Ditadura na Venezuela”, não, esse tema é manjado, “Pirataria de ‘Tropa de Elite’”, nah, escrevi sobre isto na última vez... – quanto mais ele se esforçava para achar algo de que pudesse escrever, menos ele se inspirava para escrever alguma coisa sobre este algo. Era o fim, sua carreira estava acabada, o texto já estava atrasado, toda a edição atrasaria na espera de sua crônica e ele nunca conseguiria entregar nada, nunca mais conseguiria escrever, era melhor começar a procurar outro trabalho, com uma função mais fácil, talvez comprar uma van e vender cachorro quente na esquina, todo mundo come cachorro quente, e ele nunca teria problemas em conseguir fazer cachorro quente.
Uma coisa era certa: pra cronista ele não servia. Como alguém pode se considerar um profissional se nem consegue realizar sua função? É, ele realmente não era escritor. Tavez nunca tenha sido, nunca poderia ser. Até então sua vida profissional foi uma farsa, provavelmente nem O Editor gostava de seus textos, só o elogiava por pena, compaixão para com um pobre ser que confiava em suas habilidades, aquele tapinha nas costas nunca foi sincero, fingido, o convite para jantar também, mentira! Na verdade nem foi um convite, foi mais um: “Venha jantar conosco uma hora dessas, minha esposa cozinha muito bem.” Não um: “Quer jantar comigo na sexta?”, algo certo, se ele realmente quisesse sua companhia teria convidado-o assim, não sugerido levemente e depois nunca mais comentado.
Azar! – pensou ele – Vou simplesmente escrever sobre isso: a minha falta do que escrever sobre! Dito e feito, sua crônica saiu de uma só vez, em questão de minutos ele escreveu, uma linha após a outra, um texto até maior do que o exigido. Chegou na sala d’O Editor com uma idéia na cabeça: entregaria o texto esperaria-o ler e pediria demissão, ele tinha economias, poderia comprar a van de cachorro quente, parcelada, claro, até O Editor compraria seus cachorros quentes, e ele nunca mais precisaria enfrentar O Branco, pra cachorro quente não precisa inspiração, só maionese. Entrou, entregou a folha para O Editor, ele leu, leu, leu e ao terminar levantou-se deu-lhe um tapinha nas costas e disse: “Queres jantar na minha casa na sexta?”