
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Coisas da Vida
Eu nem sei quando eu comecei a segui-las, e nem por que. Elas eram tão diferentes do tipo de mulher que eu conhecia, tão lindas, tão limpas, tão cheirosas. Faziam um estilo meio alternativo. Uma delas, a loira tinha um brinco no nariz, e pintou o contorno dos olhos tão escuro que contrastava muito com a sua pele clara, pele de quem evita o sol, de quem prefere a noite. Eu também sempre preferi a noite, o sol é tão violento, ele me cega, me embriaga, me deixa tonto. Pra mim a melhor hora é essa, logo que está anoitecendo. A senhora que cuidou de mim quando eu era novo chamava esse horário de lusco-fusco. Lusco-Fusco. Eu adoro essa palavra, sempre quis saber se teria alguma relação com o fusca, o carro. Talvez eu nunca descubra. A outra tinha a pele e o cabelo escuros, não era negra, mal chegava a ser mulata, mas certamente tinha um pé na África, talvez o avô. Era algo no contorno de seu rosto e no seu nariz que evidenciava isso. Elas conversavam tão avidamente que nem repararam que eu as estava seguindo. Primeiro elas estavam conversando sobre roupas, as duas vestiam trajes bastante escuros, pelo visto gostavam muito de preto. Depois começaram a falar sobre os garotos. Essa juventude se interessa pelas coisas de adultos cada vez mais cedo. Essas garotas deviam estar ainda brincando de bonecas, mas discutiam quantos guris tinham beijado na festa. Eu casaria com qualquer uma das duas antes de sequer beijá-las, pediria a mão dela ao seu pai, com todas as formalidades. Só de pensar que essas garotas, tão lindas já podiam até ter se iniciado nos prazeres da carne me deixava transtornado. Foi aí que dobrou a esquina, bem na frente delas, aquele cara, aparentava ser pobre: era mulato e mal vestido. E ele disse “Aí Princesa, eu lamberia até tuas frieiras”, não, ele disse: “Aí Princesa, contigo eu até lamberia até tuas frieiras”, assim sem o menor respeito com elas e nem com o idioma português. Tarado, eu tenho nojo de gente assim. Não deviam existir pessoas assim numa sociedade civilizada como a nossa. É o dever de todos nós, como cidadãos, evitar que exista gente assim à solta. Eu tenho nojo de gente assim. Eu parei, fingi que tinha esquecido alguma coisa, fiz uma cara de quem lembra de algo, fiz a volta e comecei a segui-lo. Ele era nojento, caminhava como se fosse dono do mundo, todo malandro. Parou no ponto de ônibus e ali ficou. Eu parei um pouco antes dele de modo que ele nem percebeu que eu estava observando-o. Ele era nojento, aquela guria podia ser minha esposa, minha irmã, minha filha, e ele a tratava daquela forma. Eu não sei se tenho irmãs, nunca conheci a minha mãe. Lembro muito pouco da minha infância, fui criado por uma senhora bem velha e bem gorda. Nem lembro o nome dela. Talvez nunca tenha sabido. Eu a chamava de senhora, ela me chamava de menino. Assim que cresci um pouco fui pra rua. Mas esposa e filha eu sei que eu não tenho, mas se tivesse, gostaria que fosse alguém como aquelas garotas. Alguém especial. Dentro do ônibus eu consegui sentar-me no banco imediatamente atrás do dele. Ele tinha um cheiro bem desagradável, uma mistura de suor com asa, bem azedo. Fiquei com pena da senhora que estava ao lado dele, ali o odor devia estar ainda pior. Eu tenho nojo de gente assim. Ele estava com uma camiseta azul celeste, e embaixo de suas axilas tinha aquele círculo azul escuro de suor, de gente que trabalha pesado. De quem trabalha com o corpo. Ele era bem forte, devia ser difícil derrubar um sujeito assim. Ele deve ser pedreiro, deve trabalhar como um camelo o dia inteiro, ser explorado por todo um sistema que parece que foi criado especialmente pra fuder contigo. E, por outro lado, ele enxerga umas guriazinhas limpinhas, cheirosas, com pinta de quem teve, tem e terá muito mais chance de realização pessoal na vida do que ele poderia sonhar. Aí, como descargo de consciência, ele sai faltando o respeito com elas, pra tentar baixá-las ao seu nível. Gente assim me dá nojo. Ele, mais algumas pessoas e eu descemos perto de uma praça com um campo de futebol onde jogavam uma penca de crianças, já estava escuro, mas elas ainda jogavam, quase sem enxergar a bola. Andei bem devagar, fingindo que olhava as crianças jogar, pra ele tomar uma distância segura e eu poder segui-lo sem ser notado. Entramos em um beco que dava pra dentro de uma vila. Muitos barracos, e famílias amontoadas, convivendo em uma harmonia totalmente disforme, um equilíbrio bizarro. Eu logo imaginei que ele devia ter uma esposa gorda e feia dentro de casa pra humilhar e desrespeitar a vontade, e ser pai de algumas daquelas crianças magras e tortas que tentavam correr atrás de uma bola, pois sabem que é a única saídas pra gente como eles obter fama, poder e dinheiro: sendo famosos jogadores de futebol com salários milionário em algum time da Europa. Mas não, aparentemente ele mora sozinho em um barraco no fundo de um outro barraco maior onde mora uma família. Eu observei bastante por ali, ninguém mais entrou ou saiu depois dele. Se mora mais alguém com ele essa pessoa não deu nenhum sinal, não apareceu na janela nenhuma vez. Fiquei por ali, indo e voltando até as dez mais ou menos, quando fiquei com fome e fui atrás de algum lugar pra comer. Comi um xis em um buteco da redondeza. Ali eu puxei papo com uns bêbados e com o dono do estabelecimento. Um cara como ele, assim tão nojento, deve ser também um bêbado freqüentador de uma espelunca como aquela. Um deles o conhecia, mas disse que não, que ele trabalha muito, então dorme bem cedo pra acordar cedo no outro dia também: “acorda com as galinhas”, ele disse. Então concluí que ele já devia estar dormindo a essa hora. Terminei meu xis, minha cerveja e voltei pra casa dele, onde, pra minha surpresa, ele havia deixado a janela aberta. Também, com um calor desses deve ser abafado dentro daquela pequena peça toda mal feita que ele chama de casa. Me certifiquei duas vezes de que ninguém veria eu entrando pela janela dele, silenciosamente. Ele era grande, mas eu estava armado. Atirei no peito, com ele dormindo. Acho que ele só acordou pra ver a minha cara de nojo enquanto ele morria. Esse silenciador foi minha melhor compra dos últimos tempos. Um barulho de tiro numa zona como esse chamaria a atenção de muita gente, talvez eu nunca conseguisse sair daquela vila se não tivesse esse silenciador. Tentei tocar o mínimo possível nas coisas dele e saí de lá assim que pude, aquele lugar todo me dava nojo. Tive que esperar até de manhã naquela zona pra poder pegar o ônibus de volta pra casa. Foi bom, porque eu tive bastante tempo pra pensar nas coisas da vida. Depois que amanheceu, mas só quando o sol ficou mais alto e começou pesar na minha cabeça, eu fui para a parada de ônibus, onde já estavam a esperá-lo duas mulheres. Uma delas devia ter mais ou menos a minha idade, não era tão nova, mas ainda estava na flor da idade. Conversava displicentemente enquanto esperava o ônibus com sua amiga, então puxou uma carteira de cigarros da bolsa, tirou o último de dentro e jogou no chão o masso vazio. Tinha uma lata de lixo bem do lado dela, mas ela jogou o lixo no chão. Provavelmente iria jogar o cigarro ainda acesso no chão também quando o ônibus chegasse. Eu tenho nojo de gente assim.
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