
O ano era 1969. O movimento hippie e a música psicodélica alcançavam o seu auge. A banda era The Kinks, que, mesmo se não tivesse lançado o clássico Arthur, Or The Decline And Fall Of The British Empire, já teria seu lugar garantido no hall da fama do rock'n'roll, primeiro com seu som distorcido e garageiro de hits como You Really Got Me e All Day and All of The Night, depois pelas grandes canções do rock britânico entre 66 e 68. Arthur é o disco que divisa as águas na carreira dos Kinks, é bem mais voltado ao rock do que os trabalhos anteriores, porém ainda detém aquele sentimento inocente/nostálgico dos anos 60, que foi se esvanecendo em seus trabalhos posteriores. As músicas foram concebidas por Ray Davies para serem a trilha sonora de um programa de televisão, que acabou não sendo produzido. Contava uma história vagamente baseada na de sua irmã Rosie (assim como a de Dave Davies, guitarrista solo) e de seu marido Arthur, que se mudaram para Austrália. Mas por baixo de uma história normal de um inglês comum está uma irônica crítica à sociedade britânica.
A geração dos irmãos Davies e contemporâneos cresceu com o peso da Segunda Guerra Mundial nas costas, escombros e histórias de como Império Britânico venceu os inimigos, além do medo de que novos conflitos pudessem ocorrer, assim como Arthur, o protagonista da história. A música Vitória, um rock estimulante, é uma ingênua, alegre e irônica ode à rainha e ao reino britânico: "Land of Hope and Glory", onde ele nasceu e que aprendeu a amar. Yes Sir, No Sir é uma crítica ao militarismo, onde os soldados precisam pedir autorização até para respirar e o general decide suas vidas de cima de sua autoridade na hierarquia. Aí vem Some Mother's Son, uma balada de arrepiar os pêlos que mostra o horror de uma guerra, tratando da morte de um soldado como o filho de alguma mãe que não vai poder voltar pra casa, mas mesmo assim o mundo continua girando, apesar das crianças que se foram. Drivin' é a que mais lembra os discos anteriores dos Kinks, alegre, meio vaudeville, divertida, sobre o prazer de sair dirigindo seu carro e esquecer-se dos problemas.
E é então que vem o chute no balde que faz desse disco o que ele é, Brainwashed, uma porrada sonora, que acusa sem meias palavras o homem britânico comum de parecer um ser humano, mas não ter uma mente própria, de ter sua casa, seu trabalho, seu carro, mas ter o cérebro lavado, e anuncia que os 'aristocratas e os burocratas são ratos sujos por fazerem de você o que você é.' Porém as oportunidades estão abertas na Austrália, que é retratada como um paraíso na terra, sem distinção de classes, sem vício em drogas, onde todos sempre sorriem e ninguém nunca irá deixá-lo para baixo. Australia é a única faixa do disco que representa algo próximo ao psicodélico predominante na música da época. Shangri-la começa tranqüila - sobre o paraíso do lar, as pantufas, a lareira, seu carro e sua cadeira de balanço -, alcança um refrão de vocais gloriosos, até ser cortado por uma outra parte, mais pesada, onde quem fala é algo como a consciência, mostrando como nada é assim tão fácil quanto parece, há a hipoteca a pagar, as contas, os impostos, os vizinhos são fofoqueiros e Arthur tem medo até de pensar em como ele é inseguro, a vida não é assim tão feliz em sua pequena xangri-lá.
No início, Mr. Churchill Says é despretensiosa, alegre, mostra que, como diz Sr. Churchill, devemos lutar nossas batalhas até o final, porém no meio há uma intervenção, com guitarras pesadas, sirenes de ataque aéreo, casas em chamas, pessoas mortas. Um longo solo num estilo oriental por Dave Davies introduz a um coro militar que reafirma as palavras de Churchill, e termina com guitarras distorcidas e pegada quase punk (em '69). She's Bought A Hat Like Princess Marina é a canção mais irônica do álbum, mostra como as pessoas simples compensam a tristeza de sua vida dura adquirindo bens supérfluos de valor social, como um chapéu no estilo da princesa Marina. Enquanto os vizinhos a acharem bem com seu novo chapéu ela não se importa com a pobreza ferindo seu orgulho. Youg And Innocent Days, é a mais lenta do disco, triste e nostálgica, trata da saudade da infância, aqueles grandes jovens e inocentes dias. Aí vem o rockão Nothing To Say, sobre a falta de assunto entre gerações que não mais dividem a mesma vida, e o único tema conversado é relembrando os bons tempos. A levada de piano, a guitarra solo de Dave que não pára de disparar riffs e solos a música inteira e o vocal expressivo de Ray mostram que é realmente uma gravação muito inspirada dos Kinks como banda. A última música do álbum é Arthur, uma canção de complacência para com o personagem homônimo, que nasceu uma pessoa simples, sem ambição, lutou a vida inteira para melhorar sua condição, mas o mundo sempre passou-o para trás. Será que o mundo é que estava errado e você certo, Arthur?